A sua pesquisa
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Na educação básica, o ensino da cultura e da história dos povos indígenas no Brasil se tornou obrigatório a partir da Lei n. 11.645/2008. Nesta tese, o objetivo é evidenciar os movimentos de resistência dos povos indígenas e propor contribuições para a efetividade dessa Lei, tendo em vista o processo histórico de invisibilidade e de negação desses povos na história e na sociedade brasileira. Os diálogos com lideranças indígenas, as imagens da cosmologia e da mitologia dos povos Guarani foram sendo integrados a uma experiência formativa de professores na escola. A experiência formativa de professores na escola foi inspirada nos princípios da pesquisa participante, e possibilitou interações, aprendizagens e reflexões sobre a importância da história e da cultura dos povos indígenas para o currículo escolar. As aprendizagens e as reflexões contribuíram para produzir novas percepções em relação aos povos indígenas e, também para tensionar as políticas públicas educacionais. A experiência formativa de professores foi realizada em duas escolas de educação básica, nas cidades de Santa Cruz do Sul e Estrela Velha, localizadas na região central do estado do Rio Grande do Sul. Os aportes da psicologia junguiana, dos simbolismos das imagens alquímicas e as dificuldades para participarem das atividades de formação de professores levaram a teorizar sobre a proposta de um Convite, como um processo para produzir aprendizagens e compromissos; a imagem do Convite transaciona com a abertura ao outro e contribui para os processos de autoconhecimento. É possível evidenciar, na história dos povos indígenas, desde os processos de colonização, a ansiedade cultural que se formou e as imagens coloniais que se atualizam e vão contribuindo para produzir os complexos culturais, os quais, em suas vertentes históricas e psicológicas, vão nos dissociando de nossas raízes ameríndias e desvalorizando essas origens. Ainda, na perspectiva psicológica das polaridades indígena e não indígena, em dimensões de imagens conscientes e inconscientes, e de um processo de tensões e enfrentamentos, o simbolismo alquímico nos estimula a conceber as experiências formativas como aproximações à percepção de unus mundus, como um único mundo que nos acolhe e no qual todos vivemos diferentes experiências. São vivências e simbolismos para aprofundar os diálogos e produzir novos sentidos em relação ao outro e a nós mesmos.
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O presente trabalho tem como objetivo investigar através de uma pesquisa histórica voltada para a Revista de Educação do Estado de Goiás, quais eram as concepções de infância existentes em Goiás na época de circulação da revista e entender se há relações entre o conhecimento psicológico e o processo de elaboração dessas concepções. Tal recorte se deu em função de a revista ter funcionado como um importante veículo de comunicação do Estado, no que diz respeito aos assuntos vinculados à educação, psicologia e infância, tendo circulado no período entre 1937 a 1962, passando por distintas nomenclaturas e fases. Sua existência foi concomitante ao momento de modernização do território goiano que trouxe como consequência maior enfoque na infância e no desenvolvimento de perspectivas diferentes sobre ela, como parte deste processo transformativo, principalmente por meio do movimento escolanovista. Este estudo se viabilizou através de uma análise documental e revisão bibliográfica pautada em livros, artigos científicos, legislações, dissertações, teses e demais publicações nas quais foram investigadas as concepções de infância como construções históricas, tanto em contexto global, quanto no Brasil e, sobretudo, em Goiás. Parte-se do entendimento de que a psicologia mantém uma relação estreita com a educação e a infância desde seu surgimento como ciência no Brasil e em Goiás, o que contrasta com a existência de uma quantidade reduzida de pesquisas acadêmicas envolvendo história e psicologia em contexto regional, analisando a partir de que momento a psicologia colabora com as reflexões acerca da infância goiana. A pesquisa permitiu encontrar uma visão da criança acompanhada da carga moralizadora, associada a uma história da infância e da educação infantil tradicionalmente marcada por propostas que visam acompanhar e favorecer o desenvolvimento natural da criança, isolando-a como elemento único da relação pedagógica e deslocando suas raízes históricas, culturais e sociais.
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A presente pesquisa se insere entre os estudos da história da Psicologia no Brasil, especialmente, sobre estado de Mato Grosso. Seu objetivo foi compreender o processo pelo qual o primeiro curso de psicologia de Cuiabá foi fundado, considerando as especificidades do momento histórico e desenvolvimento social do território no qual se constituiu. Fundamenta-se no método materialista histórico-dialético e em suas premissas, especialmente na apreensão da história como produto do trabalho coletivo dos humanos de transformação da natureza; e que a sociedade na qual essa atividade se realiza produz formas particulares de existência. Para tanto, foram escolhidos a coleta e análise documental como procedimentos para a realização do estudo. A coleta de documentos foi iniciada por meio do cadastro e-MEC de Instituições e Cursos de Ensino Superior, aliada à investigação dos relatórios gerados pelo IBGE e documentos (pareceres, resoluções e decretos) recolhidos por meio do portal de acesso a informações do MEC. Para a análise dos dados foi empregada a técnica de análise de conteúdo. Os resultados indicaram que o processo para a fundação de cursos de psicologia nas décadas de 1980 e 1990 não foi apenas produto da vontade de alguns, ou um evento sem correlação com a dinâmica da ação humana. Compreendeu-se que a autorização para o funcionamento dos cursos de psicologia nessas décadas destacadas levou em consideração questões como: necessidade social, capacidade econômico-financeira da instituição e situação geoeducacional. Portanto, os dados revelaram que os cursos de psicologia, em especial o da UNIC, atenderam às necessidades sociais produzidas em um campo social e em determinado meio de produção, em um dado momento histórico. Tais elementos produziram as especificidades das relações estabelecidas, gerando as formas pelas quais o curso de psicologia em questão foi introduzido na sociedade cuiabana
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O presente trabalho se insere na História das Ciências da Saúde, em particular das chamadas ciências PSI (psicologia, psiquiatria e psicanálise). Em uma tentativa de compreender a invisibilidade das mulheres na historiografia da ciência, o objetivo desta pesquisa será analisar a vida e obra de Sabina Spielrein, do período de 1911 a 1942, ou seja, ano de sua formatura em medicina ao seu falecimento. A formatura de Sabina, neste caso, nos interessa, pois este marcou o início da cura do sintoma, que desenrolou de uma cura do sintoma para o engajamento intelectual e clínico com a psicanálise, com a psiquiatria e com a psicologia. Sabina, no primeiro momento, paciente diagnosticada com histeria, internada no ano de 1904, no Hospital Burghölzli, na Suíça, tornou-se no ano de 1911 médica e desde então passou a atuar como psiquiatra, psicanalista e depois como psicóloga infantil. Russa, judia, mulher em um ambiente predominantemente masculino, Sabina foi por vezes excluída e deixada às margens por alguns de seus pares. No entanto, o seu trabalho influenciou autores de grande representatividade como Sigmund Freud (1856-1939), Carl Gustav Jung (1875-1961), Jean Piaget (1896-1980) e Lev Vygotsky (1896-1934). A análise da história das mulheres na psicanálise é extremamente interessante, pois esta resgata não apenas como as mulheres são retratadas na maioria das vezes pelo discurso tradicional da história das ciências; esta por sua vez narrada a partir um viés androcêntrico, mas em uma narrativa onde as mulheres aparecem como produtoras de um saber, neste caso, o saber psicanalítico. O palco deste trabalho será Viena, local onde a psicanálise foi criada pelo médico austríaco Sigmund Freud, ainda no ano de 1902, mas também nos locais onde Sabina Spielrein atuou.
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Na historiografia da psicologia, considera-se normalmente que o behaviorismo, enquanto escola psicológica teve seu marco oficial com o artigo de John B. Watson “A psicologia como o behaviorista a vê”, publicado em 1913 na revista Psychological Review. Em 2013, completaram-se 100 anos desde sua publicação. Tal artigo, chamado algumas vezes de “Manifesto Behaviorista”, é amplamente reconhecido pelos manuais de história e introdução a psicologia como um importante veículo de ideias que teriam mudado de maneira rápida e substancial o cenário da psicologia acadêmica, especialmente nos Estados Unidos da América. Contudo, a obra original de Watson e seu respectivo impacto ainda não foram investigadas de maneira ampla e sistemática. Parte da literatura histórica sugere que a proposta de Watson sobre dispensar o uso do método introspectivo e o estudo da consciência não foi aceita de maneira ampla e imediata, deparando-se com críticas e oposições. Além disso, a originalidade de sua proposta foi questionada, sugerindo-se que aquelas ideias já estavam presentes no contexto científico da época, ainda que não amplamente difundidas. O presente trabalho teve o objetivo de analisar bibliometricamente qual foi o impacto do artigo de 1913 em dois dos principais periódicos daquela época, Psychological Review e Journal of Philosophy Psychology & Scientific Methods, durante o período de 1903 a 1923. Palavras-chave relacionadas ao behaviorismo e estruturalismo foram contabilizadas, assim como as citações a Watson e a sua obra. Os dados foram analisados considerando-se o período anterior e posterior à publicação do Manifesto. A frequência do termo ‘behavior’ nos artigos aumentou 50% após 1913, ‘consciousness’ diminuiu 23%. Outros termos também foram mais citados após 1913, como ‘introspect’ (10%), ‘mind’ (4%), ‘control’ (20%), ‘habit’ (17%), ‘instinct’ (6%) e ‘prediction’ (5%). Esses dados mostraram que o termo ‘behavior’ e outros relacionados com uma psicologia objetiva apareceram com mais frequência a partir da publicação do Manifesto e que os termos relacionados ao estruturalismo também se mantiveram frequentes. Dados adicionais mostraram que outras obras de Watson, especificamente os livros publicados em 1914 (Behavior: An introduction) e 1919 (Standpoint), foram citadas mais frequentemente que o Manifesto, sugerindo que essas obras também foram importantes condutores do behaviorismo watsoniano.
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Esta pesquisa tem como objetivo investigar Os Encontros de Psicólogos da Área de Educação, um conjunto de três eventos realizados no início da década de 1980 no Instituto Sedes Sapientiae em São Paulo sob a organização do Sindicato dos Psicólogos do Estado de São Paulo (SPESP) e do Conselho Regional de Psicologia da 6ª Região (CRP-06). A investigação teve como base histórico-filosófica o materialismo histórico-dialético, servindo-se de pesquisa bibliográfica e, sobretudo, pesquisa documental, cujos procedimentos foram orientados pelos princípios metodológicos da micro-história italiana. Esses eventos são expressão da organização política dos psicólogos no final da década de 1970 que ao tomarem as entidades da categoria no início de 1980 propõem um projeto ético-político da Psicologia com base em uma leitura crítica da profissão, compreendida como socialmente comprometida com as classes populares. É a partir desse movimento que surge uma Comissão de Educação, responsável pela discussão da psicologia na área de educação que tem como iniciativa organizar os psicólogos, por meio dos Encontros que, por sua vez, viabilizaram um projeto de psicologia escolar e educacional. Esses eventos representam um importante momento de organização política e discussões críticas, assim como uma síntese histórica das experiências em psicologia da educação, nos quais sobressai o protagonismo de Sérgio Antonio da Silva Leite e Yvonne Alvarenga Gonçalves Khouri. Concluímos que os Encontros são produtos do projeto ético-político da Psicologia, assim como são produtores de um projeto de psicologia escolar e educacional, tornando-se um fato histórico importante da historiografia da psicologia em São Paulo
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Desde sua criação, os testes psicológicos têm sido usados em diferentes contextos, subsidiando decisões que afetam a vida de muitas pessoas. Seu uso adequado tem, como condição fundamental, o conhecimento de seus pressupostos teóricos e de suas limitações. O objetivo deste trabalho é explicitar tais pressupostos e demonstrar que o rótulo genérico testes psicológicos é inadequado para abrigar a diversidade de instrumentos do exame psicológico existentes. Com base em Pierre Bourdieu, considera-se o conhecimento científico como uma atividade social, sendo a conformação de um campo científico decorrente da configuração das forças que o compõem e de seus respectivos pesos em um dado momento histórico. Procura-se recuperar a trajetória de Alfred Binet e de Francis Galton, dois dos principais atores do campo do exame psicológico, abordando o contexto pessoal, social e histórico em que desenvolveram suas obras, e a influência de suas ideias na conformação posterior do campo. A partir disso, procura-se diferenciar técnicas projetivas e testes psicométricos, discutir as implicações de considerá-los sob o mesmo rótulo na conformação do campo do exame psicológico no Brasil de hoje e apontar aspectos importantes da formação do psicólogo para o uso adequado desses instrumentos
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Nosso propósito ao elaborar esta tese é contribuir com o estudo da Psicologia Social no Brasil, mostrando que Silvia Tatiana Maurer Lane (1933-2006) teve importância relevante na formulação das bases teóricas de uma Psicologia Social Brasileira, adotada por psicólogos sociais, professores e pesquisadores. A atividade docente foi fundamental para a formação do pensamento da intelectual respeitada, tendo se desenvolvido por meio de uma postura crítica, permanente, à psicologia social de influência americana e aos métodos tradicionais de ensino. A PUC de São Paulo, instituição na qual trabalhou durante quarenta anos, proporcionou à Silvia um ambiente de liberdade intelectual que favoreceu o seu trajeto. Escolhemos para estudar a autora um caminho ainda não trilhado por outros pesquisadores que falaram a respeito da ilustre professora, conduzindo a nossa pesquisa, em especial, a partir dos documentos pessoais encontrados no acervo deixado na PUC de São Paulo sob a guarda do Núcleo de Estudos em História da Psicologia-NEHPSI, além de livros, entrevistas e biografias escritas por outros autores. A análise do percurso de Silvia nos mostrou conexões importantes entre o seu trabalho e o contexto sócio-histórico e revelaram o prestígio da professora no Brasil e no exterior. Para o estudo das ideias, tomamos por base um texto ainda não publicado, denominado: Caminhos percorridos , escrito pouco tempo antes da sua morte e cuja finalidade era preparar uma coletânea dos seus textos, publicados ou não, mas de difícil acesso. A leitura nos permitiu entender a estrutura dada por ela ao seu próprio pensamento. Constamos que a psicologia da linguagem, as bases teóricas para formulação de uma psicologia social brasileira, a psicologia comunitária, o processo grupal e a mediação emocional são temas que estão presentes ao longo de toda a obra, gerando pesquisas, textos, cursos e apresentações, recebendo ao longo do tempo, novos olhares e releituras que fizeram avançar a compreensão dos temas. A obra não se encerra com a sua morte, deixando espaço para novos estudos e textos a serem produzidos
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O objetivo da pesquisa é apresentar um estudo histórico no qual se investigou o processo de recepção da Análise do Comportamento, ciência fundada por B. F. Skinner, pelo campo educacional no Brasil. O referencial teórico utilizado na realização da pesquisa baseou-se no conceito de recepção de teorias psicológicas. O conceito de recepção engloba os processos de acolhida e apropriação da teoria, seguido do intercâmbio entre a teoria em sua versão original e em sua versão acolhida e apropriada em um novo contexto. Esse conceito oferece subsídios teóricos para se investigar o modo como teorias psicológicas podem ser recebidas em contextos socioculturais distintos daqueles em que foram originalmente elaboradas. Nesta pesquisa, ao se investigar o processo de recepção da Análise do Comportamento pelo campo educacional no Brasil, foram analisadas a mensagem (conceitos e princípios de Análise do Comportamento), os emissores (autores que fundaram e divulgaram a teoria, casos de B. F. Skinner e Fred Keller) e os receptores da teoria (professores). O processo de recepção leva em conta, ainda, a problemática e os interesses intelectuais presentes no campo disciplinar no qual a teoria se insere. Neste caso são analisadas a problemática e os interesses intelectuais presentes no campo educacional brasileiro no período entre a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1961 e 1996, que configura o recorte temporal da pesquisa. A metodologia empregada consistiu-se na análise de quatro fontes: as edições da Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos – RBEP, publicadas entre 1961 e 1996, nas quais buscou-se identificar textos (artigos, resenhas, listas de bibliografias) que fizessem referência a Skinner e a tecnologia do ensino; a segunda fonte de pesquisa foram as ementas das disciplinas de Psicologia do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Viçosa – UFV, nestas ementas foram identificados conceitos e princípios de Análise do Comportamento, os quais foram agrupados em intervalos de cinco anos, a partir do que procedeu-se uma análise quantitativa do número de conceitos e princípios presentes em cada período; a terceira fonte foram os planos de ensino das disciplinas da área de Psicologia e Educação do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, a partir dos quais buscou-se identificar em quais disciplinas a Análise do Comportamento era ensinada e quais as obras utilizadas no ensino de seus conceitos e princípios. A quarta fonte consultada foram professores que estiveram envolvidos com a recepção da Análise do Comportamento no campo educacional. Quatro professores foram entrevistados, de acordo com a metodologia da história oral. As entrevistas, após transcritas, foram transformadas em textos. Os procedimentos de análise de conteúdo orientaram a análise dos planos de ensino, assim como das entrevistas. Os resultados apontam que a Análise do Comportamento foi recebida pelo campo educacional no Brasil de modos distintos entre os anos de 1961 e 1996. Na década de 1960 até princípios da década de 1970, a recepção da Análise do Comportamento foi marcada pelas características pessoais dos professores que com ela tiveram os primeiros contatos, destacando-se o papel de professores interessados em uma Psicologia científica e que estiveram envolvidos com concepção política de esquerda, sendo partidários de uma Pedagogia Libertadora. A partir da década de 1970, após a Reforma Universitária, de 1968, e a Reforma do Ensino Médio, em 1971, ocorre uma mudança na problemática da Educação nacional, que passa a ser a formação docente mais técnica e a gestão educacional atrelada a teoria do capital humano. Nesse período, entre o início dos anos de 1970 e a primeira metade da década de 1980, os interesses intelectuais se voltam para as chamadas tecnologias do ensino. Essas mudanças no campo educacional levaram a uma apropriação da Análise do Comportamento, aumentando o interesse pela tecnologia derivada de seus conceitos e princípios. Cresce nesse momento o interesse pela Instrução Programada e pela tecnologia do ensino, dando origem ao que alguns autores definem como concepção pedagógica tecnicista. A partir da segunda metade da década de 1980, as mudanças políticas ocorridas no país, juntamente com a emergência de teorias de viés mais sociológico, como as teorias críticas em Educação, representada na Psicologia pela Psicologia Escolar Crítica, levaram a uma crítica veemente à Análise do Comportamento, como uma teoria que serviu de base para o tecnicismo pedagógico, levando ao quase desaparecimento da Análise do Comportamento do debate educacional. Nesse período, início dos anos de 1990, foi fundada a Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental – ABPMC, e o desenvolvimento da ciência do comportamento passou a ser discutido dentro de seu próprio campo, levando a um isolamento cada vez maior da teoria, gerando um distanciamento entre os dois campos disciplinares: Análise do Comportamento e Educação. Conclui-se que a Análise do Comportamento nem sempre foi recebida pelo campo educacional no Brasil como partidária de uma perspectiva pedagógica tecnicista, tendo sido inicialmente recebida como uma teoria compatível com concepções pedagógicas libertadoras, comprometida com a análise dos determinantes sociais que modelam os comportamentos das pessoas. Só posteriormente, a partir de mudanças no campo educacional, é que ocorreu uma forma tecnicista de apropriação da Análise do Comportamento, frequentemente a partir de interpretações equivocadas da teoria. Essa forma de recepção foi criticada, levando ao afastamento da Análise do Comportamento do debate educacional, provocando seu isolamento enquanto campo disciplinar a partir dos anos de 1990.
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O presente trabalho é um estudo teórico, bibliográfico e de análise crítica de parte da produção de cunho psicanalítico de Arthur Ramos, dedicada à área da Educação Escolar, bem como sobre suas relações com os movimentos de Higiene Mental e da Escola Nova. Para fins deste trabalho foram analisadas duas obras do autor: Educação e Psychanalyse (1934) e A Criança Problema (1939). Nossa hipótese foi que a apropriação da psicanálise por Arthur Ramos contribuiu para a organização da sociedade burguesa e seu progresso ao mascarar as relações políticas e sociais da modernidade capitalista. Nosso objetivo foi aprofundar o sentido ético e político das relações entre a Escola Nova e o movimento de Higiene Mental a partir de uma análise crítica e detalhada de tais obras e das fichas de atendimento às crianças das escolas experimentais, realizadas pelo Serviço de Ortofrenia e Higiene Mental, chefiado por Arthur Ramos entre 1934 e 1939. Como principal abordagem teórico-metodológica utilizamos a Teoria Crítica, representada aqui pelo filósofo alemão Theodor Wiesengrund Adorno. Para tanto, consideramos a dimensão social, cultural e econômica da sociedade como fundamental para a análise do discurso de Ramos. Em um primeiro momento realizamos uma revisão crítica da literatura sobre a Higiene Mental e o escolanovismo no Brasil com vistas à definição de conceitos pertinentes às relações entre esses dois movimentos. Segundamente, buscamos compreender como se deu a difusão e implantação da teoria psicanalítica em suas relações com a Educação Escolar na era freudiana e pós-freudiana. Por fim, analisamos criticamente parte da produção de Arthur Ramos, bem como sua atuação no Serviço de Ortofrenia e Higiene Mental do Rio de Janeiro na década de 1930 para situar seu lugar na relação entre os conceitos de Higiene Mental, Escola Nova e Psicanálise. Concluímos que o intelectual Arthur Ramos se situou em um campo discursivo que procurou adequar a população a um projeto de Brasil em que se identificavam progresso e intenso controle social, um projeto civilizatório e barbárie. Apresentamos, assim, os elementos de barbárie no caminho para a formação social, tanto quanto aqueles favoráveis à civilização, apontando a necessidade de lançarmos luz sobre as ideologias subjacentes a tais concepções de tal modo que possamos compreender suas relações com a realidade histórico-social tendo algo a esclarecer no debate acerca das teorias pedagógicas.
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A entrada da psicologia científica no Brasil teve a educação escolar como campo privilegiado de aplicação. Nas primeiras décadas do século XX, um conjunto de reformas educacionais, ocorridas em vários estados, inclusive em Minas Gerais, deram margem à constituição de laboratórios de psicologia e de um conjunto de práticas que tinham, como referência teórico-metodológica, uma psicologia que buscava constituirse e fortalecer-se como ciência. O objetivo deste trabalho foi descrever e analisar a recepção e a circulação dos testes de inteligência a partir de sua utilização na Escola de Aperfeiçoamento de Professores de Belo Horizonte, durante seu período de funcionamento, de 1929 a 1946. Por meio de um estudo historiográfico, pode-se identificar cerca de 30 testes, fossem estes de inteligência ou testes pedagógicos. Osdados analisados são apresentados em quatro estudos complementares, em que buscamos evidenciar o processo de recepção/circulação dos testes de inteligência. Foi possível demonstrar como este foi mais amplo que a simples tradução de testes estrangeiros por professores e estudantes da Escola de Aperfeiçoamento. Nela foram produzidos novos testes, que em maior ou menor grau tomavam instrumentos estrangeiros como referência, mas os adaptavam às necessidades locais, contribuindo com a constituição da psicologia como ciência independente no país. Também foi possível identificar um uso pragmático dos testes no contexto educacional mineiro, uma vez que privilegiou-se a aplicação dos instrumentos no cotidiano escolar em detrimento da teorização sobre o construto inteligência. Esse uso pragmático teve, como consequência, sua utilização como instrumento didático-pedagógico na formação dasalunas-professoras, do que de produção de ciência. Deste forma, concluímos que a Escola de Aperfeiçoamento foi, de fato, um espaço de trabalho de adaptação e desenvolvimento de novos testes de inteligência, que foram utilizados no cotidiano dos grupos escolares da cidade e na formação das alunas-professoras da Escola deAperfeiçoamento.
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Este trabalho pretende problematizar as concepções de coletivo que se apresentam nos discursos da psicologia brasileira contemporânea. Tomamos como campo os artigos da revista Psicologia e Sociedade e construímos duas imagens: a imagem do coletivo representação é acompanhada por concepções naturalizantes das categorias com as quais trabalha. Nesta imagem de coletivo a separação entre indivíduo e sociedade é bem marcada e acaba produzindo construções abstratas dos seus fenômenos. Ao percorrer uma breve história da psicologia vemos esta surgir como uma tecnologia voltada para a ?gestão? dos coletivos, construindo e reproduzindo conhecimentos acerca dos indivíduos e do social. A imagem dos coletivos clandestinos é pautada em referências que desestabilizam as fronteiras impostas das ciências modernas e concebem tanto o indivíduo quanto o social efeito de uma produção simultânea, problematizando as fprmas de cpnhecimento das ciências tradicionais. A metodologia conta com a perspectiva histórica de Michel Foucault que afirma a primazia das relações de poder, e com as contribuições de Bruno Latour e suas conexões criando hibridismos. A proposta metodológica foi um importante instrumento ara romper com as barreiras separatistas, acentuando a presença do pesquisadpr como participante igual aos outros elementos do campo de pesquisa, enfatizando que o modo de pesquisar é com o outro e não sobre o outro. Desta forma As histórias de coletivos para uma psicologia brasileira pretende desnaturalizar modos de produzir conhecimento e categorias de coletivos herméticas. Para finalizar entre formas de fazer e perceber o coletivo temos o trabalho de campo atravessado pordois sociólogos, Emile Durkheim e Gabriel Tarde, contribuindo com as problematizações dos coletivos representação e clandestinos. Gabriel Tarde contribui produzindo uma concepção de coletivo processual, onde a imitação e a invenção ressaltam o caráter relacional do indivíduo e do social e os coloca numa produção de dupla emergência.
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A segunda década do século XX conta com uma interessante produção de livros voltados para a Educação e formação docente. Trata-se de um momento em que a Psicologia será apontada como uma das principais ciências capazes de contribuir para o melhoramento dos conhecimentos educacionais. Assim, analisar a indicação de livros de Psicologia para aformação de professores contribui para a compreensão dos processos de desenvolvimento da Educação e Psicologia como campos de produção científica. O objetivo desta pesquisa é analisar o conjunto de referências bibliográficas indicado na reforma educacional conhecidacomo Reforma Francisco Campos-Mário Casasanta em Minas Gerais no ano de 1927, para a formação de professores na disciplina de Psicologia do segundo ano do curso de Adaptação da Escola Normal de Belo Horizonte. Assim, identificamos quais eram as referências bibliográficas de Psicologia indicadas pela lei da reforma para a formação de professores nas escolas normais; analisando, por meio destas referências, que saberes de Psicologia foram propostos para a formação dos professores mineiros, compreendendo de que modo o Estado mineiro adotou estas referências como uma estratégia indispensável para a formação dos professores no âmbito da Reforma. Por meio de um estudo historiográfico, analisou-se como fontes documentais, o texto do decreto/lei nº 8225 de 1928 que orienta os programas de ensino do curso normal no Estado mineiro, elaborado a partir da reforma educacional de 1927, texto que indica a lista dos livros/referências bibliográficas a serem adotados na disciplina de Psicologia, dos quais analisamos seu sumário com o propósito de verificar que saberes deveriam vigorar no âmbito da reforma e se apresentar como auxiliares para a Educação. E em conjunto, analisou-se a Revista do Ensino de Minas Gerais, especificamenteos textos que trabalham temas relacionados à Psicologia da época; verificando um panorama conjuntural de como esta ciência foi se tornando parte do cotidiano dos agentes educacionais mineiros. Utilizou-se como suporte teórico para a realização da análise, os conceitos de "estratégia" de Michel de Certeau e de "coletivo de pensamento" e "estilo de pensamento" de Ludwik Fleck; buscando compreender quais foram os grupos envolvidos no processo deseleção das referências bibliográficas. Concluindo assim, que o governo mineiro por meio dos livros e saberes da Psicologia, voltado para a formação de professores realiza uma estratégia política visando escolher uma orientação psicológica para a educação no Estado; afirmando-se os conhecimentos do Instituto Jean-Jacques Rousseau por meio de Helena Antipoff.
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O objetivo desta dissertação é criar um registro dos primeiros cinqüenta anos da história do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro com a finalidade de promover um instrumento para a reflexão da profissão e formação em psicologia e também para sua divulgação, pois ainda é desconhecida por muitos. O Instituto de Psicologia teve sua origem no laboratório de psicologia da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro em 1924. Quando foi convertido em Instituto de Psicologia da Universidade do Brasil em 1937 teve como primeiro diretor o médico Jayme Grabois que permaneceu no cargo durante dez anos. Neste período a profissão de psicólogo não era regulamentada e ainda não existia nenhum curso de formação de psicólogo no Brasil. A primeira tentativa de criação de curso de formação em psicólogo aconteceu no Instituto de Psicologia, em 1932, quando ainda pertencia à Colônia de Psicopatas. A história do Instituto de Psicologia se cruza com a história da psicologia no Brasil e com os acontecimentos políticos do país. O Instituto nasce do desejo de criação de um centro de formação de psicólogos. O curso de psicologia é criado em 1964 na Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil e incorporado ao Instituto de Psicologia em 1966. Desde sua criação até os anos de 1980 o Instituto de Psicologia passa por diversas transformações e configurações que atravessam e são atravessadas por toda uma geração de estudantes, professores e funcionários, personagens desta história que vamos conhecer agora.
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Este trabalho teve como objetivo central compreender o surgimento e desenvolvimento da psicologia escolar no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal de Goiás (CEPAE/UFG) e suas relações com o contexto goiano e nacional. Teve como objetivos específicos: compreender quando e como a psicologia escolar surge no CEPAE; pesquisar quem eram os profissionais da psicologia que atuavam no CEPAE; investigar como era o trabalho dos psicólogos que fizeram parte historicamente do CEPAE e quais eram suas principais frentes de atuação; entender quais concepções teóricas norteavam a prática desses profissionais; e catalogar e organizar a documentação referente à história da psicologia escolar do CEPAE. Configurou-se como um trabalho historiográfico que utilizou de fonte documental. Para sua construção foram realizadas buscas no arquivo da instituição pesquisada e no Centro de Informação, Documentação e Arquivo da UFG – CIDARQ. Foram encontrados cerca de 300 documentos referentes a essa história. Após leitura e análise, os documentos foram divididos em sete categorias: Serviço de Orientação Educacional, Perfil dos Profissionais, Avaliação Psicológica, Atendimentos Individuais, Orientação Vocacional/Profissional, Intervenções Coletivas, e Material de Estudo. A história do serviço de psicologia escolar do CEPAE teve início em 1973 e, nos 40 anos da delimitação temporal dessa pesquisa, que vai até 2013, observamos que sempre houve psicólogos atuando na instituição. Esse serviço apresentou especificidades por funcionar dentro de uma universidade, como o fato dos psicólogos proporem projetos de pesquisa e de extensão. Mas também teve muitas semelhanças com a história da psicologia escolar brasileira, pois, por muitos anos, sua atuação foi marcadamente individualizante, com foco sobre os alunos. No Brasil, o movimento de crítica dentro da psicologia escolar se destaca na década de 1980, mas de acordo com os documentos pesquisados, esse movimento aparece no CEPAE, mais fortemente, na década de 1990. Apesar de o foco de atuação ter sido o aluno, foi possível observar que o serviço de psicologia escolar analisado sempre esteve presente em instâncias coletivas de atuação.
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Estudar a realidade brasileira, reconhecendo as especificidades de nosso país, foi uma das principais contribuições deixadas por Silvia Lane. Documentos primários no acervo A Psicologia em São Paulo , do Núcleo de Estudos em História da Psicologia (NEHPsi/PUC-SP), a par de suas publicações, permitiram a compreensão de um trabalho comprometido com as questões sociais, engajado em temas que expõem as dificuldades experienciadas pela população brasileira. A questão da indiferença expressa-se em grande parte da obra de Lane e reflete sua constante preocupação com a (des)construção de um caminho que, atrelado às ideias dominantes, expressa-se em práticas de exclusão e descaso. O presente trabalho tem por objetivo compreender a ênfase com que Lane se refere ao termo como necessário para conhecer as relações humanas. Assim, é por meio dos caminhos percorridos ao longo de sua vida acadêmica que a autora identifica a necessidade premente de uma reflexão crítica acerca do tema ora apresentado, reconhecendo, no trabalho do psicólogo, as condições para a construção de práticas que favoreçam movimentos de emancipação e de reconhecimento da alteridade
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Propomos construir uma cartografia do Sindicato dos Psicólogos do Estado do Rio de Janeiro, a partir das narrativas de pessoas que tiveram e/ou têm vínculos com este estabelecimento, além de pesquisa documental. As entrevistas foram realizadas com membros da antiga Associação Profissional de Psicólogos do Rio de Janeiro (1977) até os dias atuais (2010). Buscamos problematizar as forças macro e micropolíticas que atravessam este estabelecimento que “representa” os psicólogos em relação às questões trabalhistas e tem a função de “lutar por melhores condições de vida e de trabalho”. Pretendemos pensar este estabelecimento no qual perpassam várias forças constituintes e estão presentes diferentes instituições, acompanhando as implicações sócio-históricas e políticas por meio das linhas duras e flexíveis que participaram da sua formação (1962), do seu fechamento (1991) e da sua reabertura (1995). O objetivo é contribuir para a história da psicologia pensando algumas políticas e algumas práticas do Estado capitalista no contemporâneo que atravessam este estabelecimento. Além disso, problematiza-se a função que o psicólogo ocupa nesta engrenagem e como vai se articulando perante os entremeios de sua prática através da trajetória histórica de um de seus “representantes”. Foi utilizada a História Oral como metodologia e algumas ferramentas da Análise Institucional e da Filosofia da Diferença ao colocar em análise nossa implicação já que entendemos que o sindicato é também uma modulação de nossa profissão.
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Esta dissertação de mestrado teve como objetivo estudar o conceito de técnica nos trabalhos do psicólogo russo, Lev Semionovitch Vigotski (1896-1934), em obras publicadas entre os anos de 1924 e 1934, elucidando as relações que a técnica estabelece com o processo de desenvolvimento humano, seja por meio da arte, da relação com os meios de produção, da elaboração de técnicas externas (uso de ferramentas) direcionadas à ampliação da relação humana com o meio ambiente ou as técnicas internas (emprego de signos) direcionadas ao controle e ao aperfeiçoamento dos processos psíquicos. A totalidade das obras analisadas apresentam os atributos que possibilitam o que nós conceituamos por “Homo technicus vigotskiano”, a dimensão da técnica expressa de modo concreto na constituição da totalidade humana e no seu respectivo processo histórico de desenvolvimento. Tem-se em Vigotski uma “psicologia da técnica” alinhada aos preceitos materialistas e implicada na transformação da realidade concreta, alçando gradativamente o homem à novos modos de compreender o mundo e a sua própria existência.