A sua pesquisa
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Examinamos a concepção de atenção em Paul Ricœur com base em seu artigo A atenção e no primeiro tomo da Filosofia da vontade. Centramo-nos na elucidação da relação da atenção com a perceptibilidade à luz do preceito fenomenológico da intencionalidade, e no nexo entre atividade e passividade. Abordamos, a partir disso, o vínculo temático interno da atenção com a preocupação do filósofo em relação ao tempo e à duração, além de expor as vicissitudes da percepção atenta entre a antecipação e o espanto, entre o inédito e o instituído. Uma das principais conclusões aventadas por Ricœur acerca da atenção consiste em afirmar que sua essência residiria na busca pela ingenuidade dos sentidos.
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O presente artigo visa analisar criticamente ecos do encontro de Sigmund Freud com o antropólogo alemão Franz Boas na Clark University em 1909, cujos termos presentes em suas conferências são de relevância para o esclarecimento de trocas epistêmicas e metodológicas da psicanálise com as teorias sociais, em especial, a antropologia social. Busca-se demonstrar como o projeto de Totem e Tabu ressoa à convocatória de Boas realizada na conferência Problemas psicológicos na antropologia. Mas a desconsideração freudiana às críticas ao evolucionismo feitas pelo antropólogo, por sua vez, produziu importantes ruídos ao diálogo entre as disciplinas. Explicitamos como a obra de Boas, em sua leitura específica do totemismo e da noção de inconsciente, precursora da linguística estrutural, foi um elo essencial para a aproximação dos saberes psicanalíticos e antropológicos no escopo do plano lógico de formalização resgatado na interlocução entre Lévi-Strauss e Lacan a partir da década de 1950.
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Um reconhecido biólogo britânico, premiadíssimo por suas contribuições no estudo da vida marinha, imediatamente após se aposentar na Universidade de Oxford, no Reino Unido, aos 73 anos, passa a se dedicar integralmente ao estudo da vitalidade do fenômeno religioso, fundando uma Unidade de Pesquisa em Experiência Religiosa (RERU). Trata-se de Alister Hardy (1896-1985), cujas história, principais obras e concepções, influências recebidas e contribuições decorrentes para a Psicologia da Religião são focos deste artigo, de cunho teórico e historiográfico, escrito por ocasião dos 50 anos de fundação da referida unidade. Atualmente, situada em Lampeter, País de Gales, acolhida pela University of Wales Trinity University, desde 2000, recebe o nome de Alister Hardy Religious Experience Research Centre (RERC).
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A Seção de Hipnose Forense do Instituto de Criminalística teve como fundador o perito criminal Rui Fernando Cruz Sampaio. Oficializada em 1998, contribuiu para a solução de mais de 800 casos. A hipnose é uma técnica utilizada por profissionais da saúde, na qual o sujeito é induzido a um estado de alteração de consciência; está regulamentada por meio de resoluções de diferentes conselhos profissionais. A aplicação é comum no campo de saúde, mas há também derivações na esfera criminal. A hipnose forense foi utilizada como recurso auxiliar em fase de inquirição pré-processual. Buscamos, mediante análise documental junto à instituição, o resultado do trabalho realizado pela Seção de Hipnose, apresentando alguns casos, o fluxo contido nos pedidos de aplicação da técnica e a estruturação do trabalho técnico final.
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Esse artigo analisa a proposta de psicologia articulada à educação da obra Psychologie Pédagogique. L’enfant. L’adolescent. Le jeune homme (1916/1938a), à luz de um Aviso publicado na Revista do Ensino, em 1930, que indicava esse livro como leitura para professores no contexto de reforma educacional em Minas Gerais. O artigo investiga essas duas fontes, utilizando como referencial a definição de campo cultural da ciência de Feldhay, o conceito de acomodação proposto por Massimi e elaborações de Chartier sobre táticas de leitores, práticas de leitura e escolhas editoriais. O texto é organizado em três tópicos: recomendação de leituras para formação de professores; o valor e o limite do método científico na educação; psicologia pedagógica e funcionamento das funções superiores complexas. A pesquisa evidencia que a leitura de Psychologie Pédagogique foi recomendada por realizar uma acomodação entre a doutrina católica e os saberes pedagógicos modernos, bem como por apresentar uma Psicologia científica capaz de considerar a dimensão espiritual e sobrenatural do ser humano.
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O presente estudo objetiva compreender a ideia de formação que perpassa as primeiras propostas curriculares para o ensino da Psicologia no Brasil. Para o alcance deste objetivo foi utilizada abordagem descritiva e analítica da história da Psicologia científica, a partir do estudo de duas fontes principais, sendo elas o currículo de 1932 proposto por Waclaw Radecki e o currículo mínimo de 1962 reconhecido pelo Estado brasileiro, além de fontes complementares que versam sobre o tema. Foram identificadas duas categorias que circularam as proposições curriculares do ensino em Psicologia no Brasil, a saber: formação do psicólogo generalista e do especialista, sendo prevalente esta última. Concluímos que as propostas formativas que visaram alcançar o perfil do graduado em Psicologia no Brasil, sobretudo em sua gênese, revelam muito mais uma reação às questões político-sociais e culturais da época do que a construção de um sentido próprio para a formação do psicólogo brasileiro.
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Esta pesquisa objetivou descrever e analisar publicações veiculadas nos Arquivos Brasileiros de Psicotécnica, vinculadas à Psicologia Aplicada ao Trabalho, entre 1949 e 1968. Metodologicamente, é uma investigação em História Social da Psicologia que se apropria de estratégias de sociobibliometria e História Digital da Psicologia. Os resultados encontrados sugerem que a Psicologia esteve presente com estudos e intervenções à serviço das diretrizes desenvolvimentistas estabelecidas pelo Estado, e também contemplou o indivíduo e sua relação com o meio como eixo de estudos que repercutissem na vida do trabalhador, a partir da interação sujeito-trabalho. Assim, historicizar a Psicologia Aplicada ao Trabalho permitiu tatear contribuições de diferentes propostas teórico-metodológicas que viabilizaram novas perspectivas e repercutiram no desenvolvimento da própria Psicologia brasileira, em especial à voltada para o trabalho e as organizações, e que repercutiram na constituição da Psicologia enquanto profissão.
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Circunscrevemos e examinamos, neste trabalho de cunho teórico, linhas de estudo, redes conceituais e discussões em torno da percepção que se destaquem no âmbito do que denominamos de teorias praxiológicas da intencionalidade perceptiva. Orientamo-nos, em termos teórico-metodológicos, pela tradição fenomenológica. Partimos do pressuposto, presente nas abordagens fenomenológicas da percepção, da concentricidade entre a experiência perceptiva do espaço, do corpo próprio e de outrem. Combinados a estes três eixos concêntricos, elencamos, para a discussão, os problemas da atenção perceptual e da percepção amodal, do esquema e da imagem corporal, e da atenção conjunta e dos neurônios espelho. São reforçados, na análise, os vínculos entre percepção e ação, o que nos aproxima de uma concepção corpórea e situada da subjetividade.
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O objetivo do artigo é comparar duas narrativas acerca de um evento histórico à luz da história dos saberes psicológicos: o movimento de Canudos liderado por Antônio Conselheiro. As narrativas comparadas são: a interpretação dada por Euclides da Cunha acerca das características psicológicas dos participantes desse movimento, em Os Sertões; e os relatos acerca das experiências subjetivas vivenciadas em narrativas orais de sobreviventes de Canudos, colhidas por Odorico Tavares. As duas fontes, produzidas em diferentes gêneros literários (literatura e memória oral) focam as vivências dos participantes de Canudos, divergindo na forma como foram colhidas: a primeira por um observador externo e escritor interprete da visão cultural da intelectualidade brasileira da época; a segunda, expressão narrativa dos atores do movimento entrevistados. Os lugares-comuns evidenciados em ambas as narrativas foram analisados à luz dos respectivos universos histórico-culturais. As divergências emergentes são relacionadas a teorias e saberes psicológicos inerentes a esses universos.
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A partir da perspectiva psicossocial da memória social, o estudo teve como objetivo analisar as memórias étnicas e comunitárias entre mulheres quilombolas, líderes de uma comunidade localizada na região do Sapê do Norte – ES. Utilizando um roteiro semiestruturado, foram entrevistadas seis mulheres, com idades entre 32 e 65 anos. As narrativas foram sistematizadas por meio da análise de conteúdo, a partir de três unidades temáticas: memórias e vivência das mulheres, aspectos do cotidiano e identidade. Os resultados indicaram que as atividades religiosas, culturais, de trabalho, lazer e as formas de cuidado com a saúde possuem relação com a ancestralidade e com o território. A partir da memória oral e da memória prática, as memórias pessoais se confundem com a história do grupo, mesmo que as pessoas não tenham vivido determinados fatos históricos e sociais diretamente, configurando importante campo de significação que orienta os processos de identificação social na comunidade.
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O burnout se tornou um tema amplamente investigado no âmbito da psicologia organizacional. Sua definição e escopo são objeto de um debate científico e político internacional. Enquanto um dos fundadores do conceito, Herbert J. Freudenberger desempenhou um papel importante na formação da pesquisa sobre o burnout. Este artigo segue os diferentes sentidos e transformações do conceito de burnout ao longo de sua carreira, baseado em uma leitura minuciosa de suas obras. A metodologia é inspirada na história de objetos psicológicos de Danziger e por estudos que mostram a importância de metáforas no raciocínio científico. Os resultados mostram a importância do movimento Free Clinic e da psicanálise na descrição original de Freudenberger. Duas metáforas são identificadas e analisadas como o cerne do burnout: o burnout como uma síndrome e o homem como um sistema de energia. A conclusão argumenta que um melhor conhecimento sobre o passado do burnout pode ser a chave para modificar seu desenvolvimento futuro.
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O texto que se segue apresenta uma pesquisa histórica e teórica acerca de alguns aspectos do período de criação da Psicanálise por Sigmund Freud. Abordou-se especificamente a intrigante relação entre Freud e Fliess, a partir da seguinte pergunta: qual foi o papel dessa relação para a criação da Psicanálise? Certamente, o lugar de Fliess é o de amigo, interlocutor e, alguns diriam, um analista “avant la lettre”. Neste texto discute-se a possibilidade de se considerar Fliess o supervisor imaginário de Freud. Para respaldar esta hipótese, analisa-se, principalmente, a correspondência completa de Freud para Fliess, além de passagens específicas de algumas biografias de Freud e textos de estudiosos que abordaram o tema.
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Neste artigo, tivemos como objetivo revisar os fundamentos teóricos da psicopatologia fenomenológica de Thomas Fuchs no que tange a experiência do corpo na depressão melancólica. Através de pesquisas em bases de dados eletrônicas, realizamos uma revisão de literatura que investigou as obras publicadas pelo autor entre 1994 e 2018. Encontramos a corporeidade destacada como uma via de acesso à compreensão da depressão melancólica, desenvolvida no sentido da intercorporeidade ao se centrar na ideia de intersubjetividade. A intercorporeidade é a ponte de constituição ambígua da relação homem-mundo, possibilitando o compartilhamento de nossas experiências. Para Fuchs, a depressão melancólica é um transtorno da intercorporeidade, pois ao invés de conectar homem e mundo a experiência corporal torna-se um obstáculo. Fuchs contribui para a construção de uma perspectiva de humano encarnado, em que este se configura como unidade indivisível na experiência ao compreender a depressão melancólica como modo de estar no mundo do paciente.
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O tempo histórico manifesta o trabalho de elaboração dos grupos humanos na construção de diferentes objetos sociais que constituem a vida social. A partir do objetivo de se refletir sobre as representações sociais de ciganos entre não-ciganos, participaram do estudo 319 sujeitos, com idades entre 17 e 54 anos. A coleta dos dados foi realizada por meio da aplicação de questionários e o tratamento dos dados foi conduzido por intermédio da análise fatorial de correspondência, análise de cluster, análise de conteúdo categorial-temática e teste qui-quadrado. Nos resultados, foram identificadas três diferentes representações sociais sobre os ciganos a partir da imagem da cigana vidente, de uma cultura de liberdade e como indesejáveis, associadas a justificativas centradas na experiência do sujeito, em explicações endógenas ao grupo e comparativas entre ciganos e não-ciganos. Essa configuração orientou o debate sobre a produção de significados de densidade social a partir da ancoragem histórica.
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Desafios da convivência entre culturas mobilizaram a proposição de diferentes correntes teóricas e modelos de organização social e de educação desde o início do século XX. As classificações formuladas para categorizar tais correntes em geral enfatizam as diferentes posições ante a diversidade cultural apenas. Neste trabalho, objetivamos propor uma classificação que considere também posicionamentos sobre a igualdade humana. Realizamos revisão bibliográfica de tipo narrativa para analisar condições de surgimento e fundamentos filosóficos de três das principais perspectivas interculturais formuladas no último século: assimilacionismo, multiculturalismo e interculturalismo. A partir dessa análise, aplicamos a nova classificação e podemos compreender as três perspectivas como pertencentes ao projeto da modernidade e da pós-modernidade, destacar riscos da polarização de posições e explicitar a complexidade das profundas transformações sociais e educacionais necessárias para que se consolidem as almejadas experiências de interculturalidade. Concluímos que a nova classificação proposta pode fomentar discussões ao considerar desafios históricos a que cada perspectiva busca responder, valorizando suas contribuições próprias.
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Este empreendimento tem por finalidade apresentar um levantamento teórico-histórico a partir do deslizamento semântico dos conceitos acídia, tristeza, melancolia e seus análogos, oferecendo um diálogo entre a ciência teológica e as ciências humanas. A literatura utilizada articula a falta de sentido do mundo contemporâneo a partir dos textos bíblicos em autores de conhecida eminência teológica e teórica. A expressão grega “akédias”, que remonta à tradição bíblica, desenvolve-se dentro da tradição cristã como “demônio meridiano” por Evágrio Pôntico e, mais tarde, vê-se canonizada na perspectiva oriental por João Cassiano e ocidental por Tomás de Aquino e Gregório Magno. A profunda relação entre os conceitos acídia e melancolia coloca lado a lado a tradição dos pecados capitais e autores seculares, como Hipócrates e sua tese humoral, Aristóteles e seu homem de exceção e Freud em sua reflexão sobre o luto e o mal-estar da contemporaneidade a partir do princípio do prazer. Há também significativa correspondência do tema com a perspectiva de Viktor Frankl, especialmente a partir de conceitos como “vontade de sentido” e “neuroses noogênicas”, que foram por ele utilizados. Dada a abrangência do tema, entende-se esta como uma possibilidade interpretativa, buscando em expoentes do passado intuições que iluminem questões contemporâneas.
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Tivemos como objetivo investigar como os coveiros lidam com aspectos míticos e numinosos referentes ao fenômeno da morte no mundo da vida cotidiana e ao espaço do cemitério. Realizamos entrevistas semiestruturadas com coveiros atuantes no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Foram utilizadas entrevistas de três sujeitos, e para a análise fenomenológica seguimos as diretrizes metodológicas de van der Leeuw. Foram encontrados quatro núcleos de sentido de experiências de coveiros diante do numinoso: a) o aspecto assombroso do cemitério; b) atravessamento da fronteira de “lá” para “cá”; c) a passagem do aquém para o além; e d) a manifestação da fronteira entre o além e o aquém. Concluímos que, ao lidarem com a fronteira porosa e flexível que separa o familiar do estranho, cada coveiro estabelece a distância e a relação com essa fronteira e com os aspectos míticos referentes ao fenômeno da morte.
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