A sua pesquisa

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  • O trabalho aborda, inicialmente, o crescimento da vida urbana, no ocidente, ao longo do século XX, tecendo considerações sobre a importância da localidade, mesmo frente a um mundo atravessado pela globalização. As autoras aderem à concepção de Henri Lefebvre de que o espaço se configura como um dos elementos instigantes das interações da sociedade, observando que, nas cidades, as misturas culturais e sociais se fazem obrigatórias, possibilitando diferentes formas de subjetivação. Num segundo momento, utilizando autores de diversas áreas, como Félix Guattari, Kevin Lynch, Jane Jacobs e Richard Sennett , é avaliado o alcance dos espaços construídos, definindo-os como “máquinas” (no sentido de Guattari) que interpelam seus habitantes e produzem uma subjetivação que, interagindo com outros agentes, constitui o homem urbano contemporâneo. A partir de exemplos obtidos nos estudos de Lynch, Jacobs e Sennett sobre grandes cidades americanas, é destacada a importância das ruas como local privilegiado da sociabilidade, assinalando-se, contudo, situações onde determinadas opções arquitetônicas e urbanísticas acabaram por se constituir como entraves ao contato entre indivíduos, funcionando, portanto, como um dos fatores propulsores de “esvaziamento” do espaço público. Por fim, o trabalho discorre sobre algumas hipóteses explicativas para a produção deste esvaziamento e possíveis conseqüências sobre a subjetividade do homem contemporâneo, apoiando-se em autores como Sennett, Claudine Haroche e Carlos Vainer, este resgatando pressupostos estabelecidos por sociólogos da Escola de Chicago. Sem negar a tendência ao recrudescimento da valorização da intimidade e da vida privada, a dificuldade de convivência com a alteridade e uma certa indiferença que permeia as relações urbanas, as autoras apontam para algumas linhas de fuga desses padrões hegemônicos de funcionamento subjetivo, que, se intensificadas, podem provocar movimentos mais efetivos em direção à construção de uma revitalização do público.

  • Tomamos como base de análise material referente às pesquisas realizadas pelo PIVETES (Programa de Intervenção Voltado às Engrenagens e Territórios de Exclusão Social) no sentido de apontar algumas práticas presentes no judiciário. A partir de entrevistas realizadas com psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro identificamos, dentre as práticas que ali se instrumentalizam, as que poderiam estar fugindo aos modelos hegemônicos instituídos nesse encontro entre psicologia e judiciário. Seguimos os princípios da pesquisa-intervenção, que coloca em questão a neutralidade e objetividade do pesquisador, enfatizando a análise de suas implicações, investindo nas restituições possíveis e na participação dos coletivos em todas as instâncias da pesquisa. Nossas análises estão marcadas também por um enfoque histórico-genealógico trazido por Foucault que entende a história enquanto processualidade e campo de problematizações de práticas-discursos tidos e reproduzidos como naturais. Para pensar as práticas psi presentes no judiciário recorremos a Deleuze com suas linhas segmentarias, duras, flexíveis e linhas de fuga que se entrecruzam, se constituem juntas e se atravessam. Percebemos que, ao lado da construção de modelos duros de atuação, o trabalho de muitos psicólogos no judiciário tem sido também um instrumento para (re)colocar os sujeitos ali presentes – técnicos e usuários – como atores de suas histórias, na medida em que vão tomando parte ativa nas mesmas. Nas entrevistas realizadas, sobressaem falas que apontam os esforços desenvolvidos no sentido de criar espaços coletivos de discussão entre os técnicos, as diferentes equipes e instâncias do judiciário e outros estabelecimentos parceiros, como os Conselhos Tutelares. Entendemos ser fundamental dar visibilidade a tais práticas que, em seu cotidiano, vêm recusando saberes absolutos, totalizantes e percebidos como universais, e produzindo espaços de invenção e outras possibilidades de atuação.

Última atualização da base de dados: 25/05/2026 00:01 (UTC)